Durante a infância, nunca fui dada a brincar de casinha, a preparar aquelas comidinhas de mentira e a alimentar bonecas. Gostava de brincar com terra (barro rocks!), flores, folhas e o que mais pudesse encontrar no jardim da casa da vó Silvia, mas nunca (jamais!) simulava a vida de uma dona de casa. Achava estúpido (e ainda acho) brincar de coisas que lembram o inglório trabalho de todo dia. Tratava de gastar o meu precioso tempo de criança com algo mais interessante.
Apesar da minha impaciência e da falta de entusiasmo com as brincadeiras de menina, adorava ficar por perto quando minha mãe (ou meu pai) preparava algo. Eu era (e ainda sou) a cobaia oficial da casa quando era preciso testar se algo estava cru, salgado ou doce… Enfim, a raspa da tigela da batedeira ou a do copo do liquidificador era minha. Sempre. E não tinha preconceito se a massa levava ovos crus, gemas, óleo…
Tenho gostos relativamente simples (quase frugais), se comparados aos de alguns coleguinhas. Gosto de comer, mas este não é o meu esporte favorito. Não fico sem dormir pelo fato de não ter visitado este ou aquele restaurante badalado. Aliás, desconfio sempre de reviews rebuscados e fujo de lugares que estão na moda.
Num país como o nosso, às vezes, chega a ser imoral falar de comida como se faz por aí. Você quer saber a razão? Oras… Dê uma boa olhada no que acontece à porta de alguns restaurantes em regiões nobres ou experimente ler o noticiário…
Contudo, isso não significa que eu não goste de boa comida. Eu gosto. Mas boa comida, para mim, tem uma outra definição. Um significado bem diferente do conceito geral.
Muitas vezes, a boa comida não está à mesa de um restaurante tocado por um chef renomado e nem leva ingredientes mirabolantes. Ela pode se esconder ali, no singelo e cremoso purê de batatas que a minha mãe prepara quando fico doente, no omelete com cubinhos de pimentão vermelho feito pelo meu namorado ou no eterno e insuperável doce de abóbora com coco da vó Silvia…
Para mim, a comida é apenas uma forma de celebrar a vida, um elemento que une e que ajuda a resgatar memórias. E a boa comida é aquela que tem o poder quase mágico de nos fazer voltar no tempo e de reviver, ainda que por um breve instante, momentos únicos.